Uma pesquisadora de renome nacional na abertura, professores em formação, cineclube nas escolas, feira afro e praça pública lotada. A 4ª edição do Movimento Consciência Negra e Democracia mostrou que discutir racismo em Porto Franco virou coisa séria, e que isso não se faz sozinho.
Em novembro de 2025, o movimento levou para as ruas, as escolas e a Câmara Municipal o tema Saúde Mental e Educação para as Relações Étnico-Raciais, Direito, Cidadania e Justiça Social.
Este post conta como foi a edição e, principalmente, quem faz ela acontecer. Porque o Movimento é da CIATDAL, mas não é só da CIATDAL. Se você quer entender o que é o movimento e a história dele desde 2022, comece por este outro artigo.

O tema de 2025, saúde mental e educação antirracista
O tema não foi escolhido por acaso.
Falar de saúde mental no contexto racial é reconhecer uma coisa que costuma ficar em silêncio. O racismo adoece. Ele afeta a autoestima do estudante, o rendimento na escola, a relação da pessoa com o próprio corpo e com o próprio cabelo. E quando ninguém nomeia isso, a dor continua ali, sem nome.
Ao unir saúde mental e educação para as relações étnico-raciais, a edição 2025 tratou o problema onde ele começa, dentro da sala de aula, e não apenas no discurso.

A conferência de abertura com Nilma Lino Gomes
A abertura trouxe para Porto Franco uma das maiores referências do país em educação e relações étnico-raciais, a professora e pesquisadora Nilma Lino Gomes, autora de O Movimento Negro Educador.
Trazer um nome desse porte para uma cidade do interior do Maranhão não é detalhe, é declaração de intenção. Diz que o debate feito aqui tem a mesma altura do que se faz nos grandes centros, e que a periferia não precisa esperar convite para produzir conhecimento.

A formação de professores e a Lei 10.639
Se tem uma frente que muda o jogo a longo prazo, é essa.
Nos dias 13 e 14 de novembro, o movimento realizou a formação de professores da rede municipal e estadual, com certificação. E o alvo aqui é claro, fortalecer a aplicação da Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas do país.
A lei existe desde 2003. O problema nunca foi a lei, foi a formação. Muito professor quer ensinar história afro-brasileira e não recebeu preparo para isso. É esse buraco que a formação do movimento preenche, com conteúdo, material e prática pedagógica.

Cineclube, rodas de conversa e oficinas
O movimento não fica na palestra. Ele vai onde o público está.
Teve cineclube com exibição de filme e roda de conversa depois da sessão, inclusive dentro das escolas, como no IEMA. Teve mesa redonda sobre o que ninguém fala a respeito da escola e do racismo. Teve oficina de arte com crianças, oficina de estética negra e roda de conversa com estudantes.
A lógica é simples e funciona. Primeiro a pessoa sente, depois ela debate. O filme abre a porta, a conversa entra.

A cultura na rua e a feira afro
O encerramento é em praça pública, aberto a toda a cidade, e é aí que o movimento vira festa.
A edição teve apresentações culturais, música no palco, a Roda de Tambor de Porto Franco e uma feira afro com artesãos e empreendedores negros da região.
A feira merece um parágrafo próprio, porque ela responde a uma crítica comum. Cultura não paga conta? Paga. A feira afro põe dinheiro no bolso de artesão, de cozinheira, de artista local. O movimento gera renda enquanto gera consciência.
A rede que faz o Movimento acontecer
Agora a parte que quase nunca se conta.
O Movimento Consciência Negra e Democracia é coordenado pela CIATDAL, mas construído por muita gente. Ele nasceu, aliás, de uma conversa. Os integrantes da companhia, em sua maioria negros, já faziam apresentações nas escolas em novembro. Numa dessas, conversando com professores do NEABI, veio a ideia de criar algo maior, onde muita gente pudesse participar e falar sobre racismo de verdade.
Essas são as frentes que sustentam o movimento hoje.
NEABI, do IFMA Campus Avançado de Porto Franco
O Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas do Instituto Federal do Maranhão é parceiro de origem. Foi de uma conversa com professores do NEABI que a ideia do movimento nasceu, e é dele que vem boa parte do lastro acadêmico das formações e dos debates.
Uni-Afro Brasil e os grupos culturais do município
Os coletivos e grupos culturais de Porto Franco entram com o que sabem fazer, ocupar a rua e mobilizar gente. É essa camada que garante que o movimento não vire só seminário.
As escolas, os professores e o IEMA
Escolas municipais e estaduais abrem as portas para as oficinas, os cineclubes e as rodas de conversa. Professores participam da formação e levam o conteúdo para a sala de aula depois que o movimento acaba. É o que faz o efeito durar o ano inteiro.
A sociedade civil organizada
O movimento reúne também ex-militantes do MST, lideranças comunitárias e outras frentes organizadas da sociedade civil. Gente que já tinha história de luta e que soma essa bagagem ao debate racial.
O poder público e o fomento
A edição contou com apoio da Prefeitura de Porto Franco e com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, a PNAB, do Ministério da Cultura. Sem política pública de cultura, um movimento desse porte simplesmente não acontece em uma cidade do interior.
A imprensa
O Grupo Mirante entrou como veículo oficial da edição, ampliando o alcance do debate para fora de Porto Franco.

Existe um desafio que a própria organização reconhece, e vale dizer com honestidade. A parte mais difícil não é reunir artista ou professor, é envolver o poder público local e as representações políticas. Por isso a presença do movimento na Câmara Municipal não é foto protocolar, é disputa de espaço.
Como foi a edição 2025, em imagens
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O que o Movimento deixa em Porto Franco
O impacto não cabe em uma foto de encerramento. Ele aparece depois.
- Autoestima e identidade. Reconexão com as raízes e com o valor da contribuição afro-brasileira, especialmente entre jovens.
- Formação de novos líderes. Jovens que entram como participantes e saem como referência para outros jovens da comunidade.
- Renda e visibilidade. Artistas, artesãos e profissionais de cultura da região ganham mercado e palco.
- Educação que continua. Professores formados levam a história afro-brasileira para a sala de aula o ano inteiro.
- Consciência de democracia. Ao mostrar a participação do povo negro na construção da democracia brasileira, o movimento reforça cidadania e direitos.
O festival aproxima diferentes grupos da comunidade, promovendo a apreciação e o respeito pela diversidade cultural negra, e atua como uma verdadeira ferramenta de transformação social e igualdade.
CIATDAL
Perguntas frequentes
O que é o Movimento Consciência Negra e Democracia?
É um movimento cultural realizado anualmente em Porto Franco, no Maranhão, desde 2022, coordenado pela CIATDAL. Ele reúne formação de professores, oficinas, cineclube, rodas de conversa, feira afro e apresentações culturais em torno do combate ao racismo e da valorização da cultura negra.
Quem realiza o movimento além da CIATDAL?
O movimento é construído em rede, com o NEABI do IFMA Campus Avançado de Porto Franco, a Uni-Afro Brasil, grupos culturais do município, escolas municipais e estaduais, professores, ex-militantes do MST e outras frentes da sociedade civil, além do apoio da Prefeitura de Porto Franco e da Política Nacional Aldir Blanc.
Qual foi o tema da edição 2025?
Saúde Mental e Educação para as Relações Étnico-Raciais, Direito, Cidadania e Justiça Social. A conferência de abertura foi conduzida pela pesquisadora Nilma Lino Gomes.
O que é a Lei 10.639/03?
É a lei que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas brasileiras. Fortalecer a aplicação dela na prática é um dos objetivos centrais da formação de professores do movimento.
Por que o 20 de novembro é importante?
É o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, que marca a morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares. Desde a Lei 14.759, de dezembro de 2023, a data é feriado nacional em todo o Brasil.
Como participar do movimento?
O movimento é aberto à comunidade. Escolas, professores, artistas, coletivos e voluntários podem participar das oficinas, das formações e das ações. Fale com a nossa equipe pelo WhatsApp.
Faça parte da próxima edição
Quer levar o movimento para a sua escola, participar das oficinas, expor na feira afro ou apoiar o projeto? A nossa equipe está pronta para conversar com você.




























