Miquéias Gomes dos Santos entrou na CIATDAL em 2009, com 14 anos. Morava em Campestre do Maranhão, a cerca de 20 km de Porto Franco, e ficava na cidade depois da aula para ensaiar. Hoje, aos 31, está no doutorado, foi aprovado no concurso da Embrapa e continua ajudando a companhia a escrever projetos.
Ele abre a série de histórias dos 20 anos da CIATDAL. Cada post conta a trajetória de uma pessoa que passou pela companhia, construiu alguma coisa aqui dentro e manteve o vínculo depois de sair.
Miquéias foi escolhido para ser o primeiro porque é uma das pessoas que há mais tempo caminham conosco. Os trechos entre aspas são dele, e a carta inteira que ele escreveu está no fim do post.
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Quem é Miquéias Gomes dos Santos
- Idade. 31 anos
- Cidade. Campestre do Maranhão, vizinha de Porto Franco
- Entrada na CIATDAL. 2009, com 14 anos
- O que fez na companhia. Dança, teatro, poesia e texto para peças
- Hoje. Doutorando, aprovado no concurso da Embrapa e membro vitalício da CIATDAL
Como Miquéias chegou à CIATDAL
Em 2009 ele estudava no Centro de Ensino Fortunato Moreira Neto, em Porto Franco, a escola onde a companhia nasceu. Todos os dias pegava transporte de Campestre do Maranhão para ir à aula.
O convite veio de uma colega de sala, a Rainara, que já fazia parte do grupo havia bastante tempo. Foi ela quem levou Miquéias para o primeiro ensaio.
A CIATDAL também ficou conhecida entre os jovens da região pelas apresentações que fazia nas escolas. Era assim que muita gente da idade dele ouvia falar do grupo pela primeira vez.
03 ensaios por semana, contando a passagem
Depois que entrou, Miquéias mudou a rotina. Em vez de voltar para Campestre do Maranhão no ônibus do fim da tarde, ficava em Porto Franco para ensaiar no começo da noite e voltava para casa de van.
Ele conseguia ficar cerca de 03 vezes por semana, que era o que dava para pagar de passagem. Em muitas noites, a própria companhia ajudou a pagar a volta.
Na época a CIATDAL ainda não tinha sede. Os ensaios aconteciam na quadra da Igreja Matriz, no centro da cidade, e de lá ele caminhava até o entroncamento para pegar o transporte.
A volta a pé pelo viaduto
Na primeira vez, para não gastar com mototáxi, Miquéias fez o caminho a pé. Depois repetiu isso muitas outras vezes. No meio do trajeto existe um viaduto, e ele subia pelo passeio de pedestres.
Lembro até hoje de chegar ao topo, olhar para trás e ver as luzes da cidade. Foi uma das poucas vezes na minha vida em que me senti tão realizado.
Miquéias Gomes dos Santos, sobre a volta para casa depois dos ensaios
Ele descreve aquela caminhada como o cansaço somado à serenidade de ter passado as últimas 02 horas ao lado de pessoas que ele chama de lindamente únicas.
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O que mudou na vida dele depois da CIATDAL
Antes da companhia, a vida de Miquéias era muito caseira e girava em torno da família. Dentro da CIATDAL ele fez amigos e começou a conhecer o mundo fora de casa.
Foi a primeira vez que ele viveu fraternidade, carinho e compaixão fora do núcleo familiar, nas palavras dele. E ele diz que essa experiência o moldou.
Depois de tantos anos vivendo essa experiência, posso dizer que me tornei um ser humano melhor.
Miquéias Gomes dos Santos
A dança, o teatro e a escrita
Miquéias chegou pela dança e participava das apresentações, mesmo dizendo que nunca foi um grande dançarino. Na companhia ele também começou a escrever poesia em prosa e algumas peças.
O teatro, as conversas e as trocas com o grupo viraram outras formas de ele se expressar e aprender.
A CIATDAL vista de fora, de 2009 até hoje
Miquéias acompanhou de perto a forma como Porto Franco passou a olhar para a companhia. No começo, muita gente via só um grupo de jovens que fazia dança de rua e começava a se aventurar pelo teatro.
Com centenas de apresentações ao longo dos anos, ele acredita que essa percepção mudou. Para ele, hoje fica mais fácil enxergar que a CIATDAL leva valores, beleza e questionamentos para a comunidade, além da arte que aparece no palco.
Onde Miquéias está hoje
Miquéias não dança mais e não participa das atividades de teatro, mas continua sendo membro vitalício da CIATDAL. Ele se define como um membro de coração.
Segundo Edvan da Silva Oliveira, idealizador da companhia, Miquéias fez um curso concorrido, hoje está no doutorado e foi aprovado no concurso da Embrapa. Também já viajou por vários países da Europa.

Os projetos que ele ajuda a escrever
Mesmo de longe, Miquéias ajuda a CIATDAL na elaboração de projetos. Recentemente, ele e a companhia aprovaram juntos 02 projetos, um pela Lei Rouanet e outro pela Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão.
Ele nunca foi professor nem monitor da companhia, e não ocupou uma função fixa. Escrever projetos virou o jeito dele de continuar contribuindo.
Por que a CIATDAL escolheu contar essa história
A série dos 20 anos mostra pessoas que passaram pela companhia e continuam ligadas a ela anos depois. A CIATDAL quer mostrar, com gente real, o efeito que a arte teve na vida de quem passou por aqui.
Miquéias sempre nos relatava que a arte havia mudado sua vida, fazendo-o enxergar as coisas com outros olhos, com mais sensibilidade, empatia e humanidade.
Equipe da CIATDAL
Para Edvan, a história do Miquéias mostra que o vínculo construído na companhia dura mesmo depois que a pessoa sai. Ele lembra que muitos pais colocam o filho na quadrilha junina ou na dança quando criança, e depois passam a ver a arte como coisa sem importância quando o filho cresce.
Trajetórias como a de Miquéias mostram o contrário. Ele saiu da sala de ensaio, construiu uma carreira acadêmica e continua trabalhando pela cultura de Porto Franco.
O recado de Miquéias para quem tem vergonha de entrar
Entre. Experimente. Conheça. Converse. Se não quiser dançar, não dance. Se não quiser atuar, não atue. Se quiser apenas ajudar a organizar as atividades e os eventos, participe.
Miquéias Gomes dos Santos
Para ele, a CIATDAL é um núcleo de fraternidade, e aprender esse valor desde cedo faz diferença na vida de qualquer jovem.
A carta do Miquéias para a CIATDAL
Este é o depoimento inteiro que ele escreveu para a série, do jeito que mandou.
Miquéias Gomes dos Santos, 31 anos
Eu sou o Miquéias. Entrei na Companhia de Teatro e Dança Arte Livre (CIATDAL) quando tinha 14 anos, em 2009. Eu estava no segundo ano do ensino médio e estudava no Centro de Ensino Fortunato Moreira Neto, em Porto Franco, no Maranhão, onde surgiu essa bela companhia.
Eu sou de Campestre do Maranhão, cidade vizinha, e todos os dias pegava transporte para estudar em Porto Franco. Um dia, uma grande amiga e colega de sala, Rainara, que já fazia parte da companhia havia bastante tempo, me convidou para conhecer e participar. Foi aí que minha história com a CIATDAL começou.
Naquela época, em vez de voltar para Campestre do Maranhão no ônibus no fim da tarde, eu ficava em Porto Franco para ensaiar no início da noite e depois voltava para casa de van. Eu conseguia ficar para os ensaios cerca de três vezes por semana, que era o que eu conseguia pagar de passagem. Muitas vezes também contei com o apoio da própria companhia para conseguir voltar para casa após os ensaios.
Hoje já não estou presente fisicamente na CIATDAL. Não danço mais e não participo das atividades de teatro, mas continuo sendo um membro vitalício da companhia. Sou um membro de coração. Minha participação atualmente é mais esporádica. Às vezes auxilio na elaboração de projetos e, recentemente, conseguimos aprovar juntos dois projetos: um pela Lei Rouanet e outro pela Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão.
A vida antes da CIATDAL era muito caseira, muito resumida só à família. Depois que entrei, comecei a explorar mais o mundo, fiz mais amigos e, pela primeira vez, tive a oportunidade de experimentar fraternidade, carinho e compaixão fora do meu núcleo familiar.
Isso me moldou profundamente. Depois de tantos anos vivendo essa experiência, posso dizer que me tornei um ser humano melhor. As pessoas que conheci na CIATDAL somaram à minha vida de uma forma imensurável, e espero também ter conseguido somar um pouco à vida delas.
Uma lembrança que não sai da minha cabeça aconteceu logo no começo. Naquela época, a companhia ainda não tinha uma sede própria e ensaiávamos na quadra da Igreja Matriz, no centro da cidade. Depois dos ensaios, eu precisava caminhar até o entroncamento para pegar o transporte de volta para Campestre do Maranhão. Na primeira vez, para não gastar com mototáxi, fui a pé. Fiz isso muitas outras vezes. No meio do caminho há um viaduto e eu subia por ele pelo passeio de pedestres. Lembro até hoje de chegar ao topo, olhar para trás e ver as luzes da cidade. É uma cena que ficou marcada na minha memória. Foi uma das poucas vezes na minha vida em que me senti tão realizado. Aquela sensação nova de estar conhecendo um pouco mais da vida; aquela caminhada de volta para casa, depois dos ensaios; o cansaço somado à serenidade de ter passado as últimas duas horas ao lado de pessoas tão lindamente únicas; tudo aquilo era muito reconfortante para mim.
Na companhia, desenvolvi também um contato muito maior com meu lado criativo. Comecei a escrever poesia em prosa e também algumas peças; e, embora nunca tenha sido um grande dançarino, participava das apresentações.
Também acompanhei a transformação da forma como a sociedade percebe a CIATDAL. No começo, muitas pessoas enxergavam apenas um grupo de jovens que fazia dança de rua e começava a se aventurar pelo teatro. Nem todo mundo compreendia, naquela época, a proposta maior da companhia e seu potencial de agregar valor à sociedade.
Com o passar dos anos, através de centenas de apresentações e de todo o trabalho desenvolvido, acredito que essa percepção mudou. Hoje é mais fácil enxergar que a CIATDAL não está apenas fazendo dança ou teatro. Ela dissemina valores, provoca questionamentos importantes para a evolução da sociedade, leva beleza e contribui para o enriquecimento humano.
Para quem está pensando em entrar, mas fica com vergonha, eu diria simplesmente: entre. Experimente. Conheça. Converse.
Se não quiser dançar, não dance. Se não quiser atuar, não atue. Se quiser apenas ajudar a organizar as atividades e os eventos, participe. A experiência é enriquecedora. A CIATDAL é um núcleo de fraternidade, e desenvolver esse valor desde cedo é algo muito importante. É algo que faz muita falta no nosso mundo hoje.
Eu nunca cheguei a ser professor ou monitor da companhia, nem assumi uma função específica. Mas continuo encontrando maneiras de contribuir, como na elaboração de projetos. E é sempre muito gratificante poder participar novamente das atividades da companhia.
Hoje, olhando para tudo o que vivi, entendo que não é necessário estar fisicamente presente para continuar presente na vida de alguém. Eu estou presente na vida da CIATDAL, assim como ela está presente na minha. E tenho a impressão de que a vida ainda vai nos reunir novamente. Certamente não da mesma forma de antes, mas de alguma forma.
Para mim, a CIATDAL representa beleza, esperança e fé na humanidade.
Um beijo, meus amigos. Amo vocês.
Miquéias
Perguntas frequentes
Quem é Miquéias Gomes dos Santos?
É uma das pessoas que há mais tempo caminham conosco. Entrou em 2009, com 14 anos, vindo de Campestre do Maranhão. Hoje está no doutorado, foi aprovado no concurso da Embrapa e é membro vitalício da companhia.
O que é a série de histórias dos 20 anos da CIATDAL?
É uma série de posts do blog, um por pessoa, com a trajetória de quem passou pela CIATDAL e manteve o vínculo com a companhia. Miquéias abre a série.
Como Miquéias ajuda a CIATDAL hoje?
Na elaboração de projetos culturais. Ele participou da aprovação de 02 projetos, um pela Lei Rouanet e outro pela Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão.
Quem pode participar da CIATDAL?
Qualquer jovem da comunidade. Dá para entrar pela dança, pelo teatro, pela leitura ou ajudando na organização das atividades e dos eventos.
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