A CIATDAL completa 20 anos. Tudo começou em janeiro de 2006, quando um jovem de Porto Franco que tinha acabado de vencer um câncer resolveu agradecer à cidade da única forma que sabia, montando um espetáculo de teatro.
Hoje a Companhia de Teatro e Dança Arte Livre, a CIATDAL, é Ponto de Cultura, tem sede, sete projetos permanentes e reconhecimento nacional. Nada disso existia quando o grupo começou.
No início eram ensaios na calçada, sem dinheiro, sem espaço próprio e com apelido pejorativo vindo da rua. Essa é a história de como um agradecimento virou um movimento cultural que atravessou duas décadas.
A Paixão de Cristo encenada ao ar livre, o espetáculo que deu origem ao grupo. Foto de Evaldo Jordan e Fábio Peixe, Porto em Foco. Espetáculo dos primeiros anos, com a plateia sentada em volta. Clique para ampliar.
Os 20 anos da CIATDAL em números
O agradecimento que virou espetáculo
A história da CIATDAL começa com uma doença. Edvan da Silva Oliveira foi diagnosticado com um linfoma e precisou fazer tratamento em outro estado.
Porto Franco se mobilizou para ajudar. Vizinho, amigo, gente que nem o conhecia direito, todo mundo contribuiu para bancar o tratamento e mandar apoio de longe.
Ele se recuperou. E ficou com uma dívida que não era de dinheiro.
Em janeiro de 2006, como forma de agradecer, Edvan reuniu um grupo de jovens da comunidade e montou o espetáculo Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. A apresentação emocionou a cidade e teve grande repercussão.
O teatro foi a linguagem que abriu a história da instituição. Cena de um dos primeiros espetáculos do grupo. Clique para ampliar.
Veio então um segundo espetáculo, dessa vez sobre a importância de falar de saúde, tratamento precoce e infecções sexualmente transmissíveis. Assunto que ele conhecia por dentro.
No fim daquela apresentação, os jovens fizeram a pergunta que mudou tudo. “Qual será a próxima peça?”
Não havia próxima peça planejada. Havia um grupo que não queria parar.
A cada montagem chegava gente nova, e a cada montagem aparecia o desafio de produzir a seguinte. Foi desse movimento espontâneo, sem projeto e sem dinheiro, que nasceu a CIATDAL.
Antes de 2006 existiu o Amor à Arte
O teatro já estava ali antes. No início dos anos 2000, um grupo de estudantes do ensino médio de Porto Franco fazia atividades culturais na escola.
Eram Edvan da Silva Oliveira, Wesley Fernandes Silva, Maria de Fátima, Jhonatan Reis e Flávio Melo. Ao terminar o terceiro ano, para não largar o que tinham começado, criaram o grupo Amor à Arte, que fazia apresentações em eventos públicos do município.
Com o tempo o grupo se desfez. A semente ficou.
Os jovens do Grupo Arte Livre, o coletivo que deu origem à CIATDAL. Cena de espetáculo dos primeiros anos do grupo. Clique para ampliar.
Os ensaios na calçada e o preconceito do começo
Os primeiros ensaios aconteciam em frente à casa da senhora Alzira Maria da Silva Oliveira, mãe de Edvan. Sem sala, sem palco e sem recurso, os jovens se reuniam ao ar livre para estudar texto, criar personagem e ensaiar coreografia.
Nem todo mundo entendia. Os integrantes eram alvo de apelido pejorativo e de discriminação de quem não via valor em arte feita por jovem de periferia.
Eles continuaram. Com o crescimento das atividades, o grupo passou a ensaiar na quadra da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, até que uma troca de representantes da igreja fechou aquela porta.
Do terreiro para o palco, o teatro seguiu sendo a linguagem de origem. Turma inteira em aula de dança, no salão de tijolo aparente. Clique para ampliar.
A saída foi bancar o próprio espaço. Entre 2011 e 2013, os integrantes alugaram uma casa na Travessa Tocantins, no bairro Vila Nova.
Aquela casa virou mais do que sede. Ela virou república. Jovens em situação de vulnerabilidade passaram a pernoitar e até morar ali por temporadas, porque não tinham para onde ir.
É a parte da história que quase nunca aparece nos releases. Antes de ser uma instituição com projeto aprovado, a CIATDAL foi um lugar onde adolescente da periferia arrumava onde dormir.
Em 2009 o grupo virou instituição
Durante os três primeiros anos a CIATDAL funcionou na informalidade, como coletivo.
Em 2009, o grupo perdeu a chance de participar de um projeto por um motivo simples e frustrante. Não tinha CNPJ.
Foi o empurrão que faltava. Elaboraram o Estatuto Social e formalizaram a associação, o que abriu caminho para editais, parcerias e captação de recurso.
Equipe, parceiros e apoiadores reunidos no palco de um evento na cidade. A pauta racial dentro da CIATDAL, antes de virar projeto permanente em 2022. Clique para ampliar.
São 15 os membros fundadores registrados no Estatuto. Roniel Costa Silva, Vegna Barbosa de Oliveira, Rainara Pereira dos Santos, Ricardo Santiago Costa Silva, Fábio da Silva Santos, Fábio Gomes da Silva, Leidyanne Barbosa de Oliveira, José Carlos Gomes Lima, Edvan da Silva Oliveira, Leniel Alves da Silva, Erisnaldo Gonçalves da Silva, Monique Evans Pereira de Carvalho, Karina de Oliveira Reis, Anatécia de Moura de Freitas e Edvan Pereira da Silva.
Sem esse documento não existiriam os editais que vieram depois, nem os projetos que hoje atendem centenas de pessoas por ano. Foi burocracia virando possibilidade.
Como a dança de rua entrou na história
Em 2008, o grupo foi convidado para fazer a abertura cultural do Dia Nacional da Juventude da Diocese de Carolina, em Campestre do Maranhão.
O público seria quase todo de adolescente e jovem. Para conversar com essa plateia, o grupo decidiu misturar teatro e dança de rua no mesmo espetáculo.
Os ensaios continuavam na calçada de dona Alzira. E foi ali que aconteceu o acaso que mudou o rumo da instituição.
A professora de Educação Física Lina Maria passou pelo local, parou para assistir e convidou o grupo na hora para se apresentar na abertura dos Jogos Interclasses do Centro de Ensino Fortunato Moreira Neto.
O grupo de dança de hoje, 20 anos depois do primeiro espetáculo. Oficina de dança em espaço improvisado, antes da sede atual. Clique para ampliar.
A apresentação foi um sucesso. A partir dali a dança de rua deixou de ser um elemento dentro de uma peça e virou linguagem permanente da CIATDAL.
Teve ajuda do momento também. O filme Se Ela Dança, Eu Danço era febre entre os jovens e despertou o desejo de montar um grupo de dança de verdade.
A dança urbana pegou porque falava a língua da juventude. Ela é acessível, é coletiva e devolve protagonismo para quem quase nunca tem. É o mesmo motivo pelo qual, até hoje, a dança de rua funciona como cuidado emocional para os jovens da periferia.
Os projetos que nasceram nesses 20 anos
O que começou com teatro e dança virou um conjunto de frentes permanentes.
- Festival Intermunicipal Porto Dança, com 06 edições realizadas
- Movimento Consciência Negra e Democracia, com 05 edições
- Boi do Favela, que preserva a tradição do bumba meu boi na cidade
- Projeto Leia Mais, de incentivo à leitura
- Biblioteca Comunitária Maria Firmina dos Reis, criada quando a CIATDAL completou 12 anos
- CineArte Clube, de cinema e audiovisual
- Espaço Cultural Mano Eris, que abriga oficinas e vivências
Encontro do Projeto Leia Mais, com a mesa de livros no meio da roda. Ação do Movimento Consciência Negra e Democracia com estudantes. Clique para ampliar.
Cada um tem uma origem própria. O Boi do Favela nasceu como homenagem ao mestre Felipe Serrão, que trouxe praticamente sozinho a tradição do bumba meu boi de São Luís para Porto Franco, e a CIATDAL assumiu o compromisso de manter esse legado vivo.
O Movimento Consciência Negra e Democracia é mais recente. Em 2022, as professoras Ana Raquel, Gardênia e Rebeca Coelho, do IFMA Campus Porto Franco, procuraram Edvan com a proposta de fazer juntos um projeto para o Dia da Consciência Negra.
A pauta racial já atravessava a trajetória do grupo em apresentações e convites pontuais. A partir daquele encontro, ela virou planejamento permanente da instituição, com pesquisadores, educadores, estudantes e lideranças comunitárias na mesma roda.
A biblioteca que nasceu de um aniversário
Quando a CIATDAL completou 12 anos, o presente que a instituição deu para a comunidade foi uma biblioteca.
A Biblioteca Comunitária Maria Firmina dos Reis leva o nome da escritora maranhense autora de Úrsula, de 1859, reconhecida como a primeira romancista negra do Brasil. Homenagem que diz muito sobre a escolha de quem batizou o espaço.
A Biblioteca Comunitária Maria Firmina dos Reis, aberta à comunidade. Sessão ao ar livre, com o bairro inteiro sentado na cadeira de plástico. Clique para ampliar.
Ela não é só prateleira com livro emprestado. Virou lugar de contação de história, mediação de leitura, sarau e atividade educativa para criança, adolescente, jovem e adulto do bairro.
Foi esse trabalho que colocou a CIATDAL no mapa nacional da leitura e resultou no reconhecimento pelo Edital Brasil que Lê.
O menino que chegou de bicicleta
Entre todas as histórias desses 20 anos, uma é contada sempre.
Ainda no tempo do Grupo Arte Livre, durante um ensaio na calçada, um jovem chegou de bicicleta, de calça folgada e jeito marrento. Ficou olhando de longe, se aproximou e fez uma pergunta.
Posso ensaiar com vocês?
Erisnaldo Gonçalves da Silva, na primeira vez em que apareceu no ensaio
A resposta foi sim. Erisnaldo virou um dos jovens que construíram a CIATDAL, participou dos ensaios, das apresentações e dos anos mais difíceis, e sua assinatura está no Estatuto Social como membro fundador.
Anos depois, sua trajetória foi interrompida por um ato de violência. Mas não é assim que a instituição escolhe lembrar dele.

O menino da bicicleta virou artista, virou educador e virou Professor Erisnaldo Gonçalves da Silva. O nome dele está na parede da sede, no espaço cultural que a CIATDAL batizou de Mano Eris, junto com uma frase que ele deixou.
Celebrar 20 anos é lembrar que essa história foi construída por muitas mãos, e algumas delas não estão mais aqui.
A sede, levantada aos poucos
A CIATDAL funciona hoje em uma sede cedida pelo próprio fundador, na Rua Ingarana, no bairro Alto Bonito.
Ela não nasceu com a cara que tem hoje. Começou como uma casa antiga de parede rosa desbotada, com entulho na calçada e telhado velho.
A casa como ela era, antes de virar sede. O mural do coração com asas sendo pintado na fachada. Clique para ampliar.
A primeira mudança foi na parede. A casa ganhou tinta e, na frente, o mural do coração com asas, que é o símbolo da instituição.
Daquele dia em diante, quem passava na rua sabia o que funcionava ali.
A mesma casa depois, com a marca da CIATDAL na frente. A obra da sede tocada por gente da própria casa, em 2023. Clique para ampliar.
Depois vieram as obras, feitas no ritmo que o dinheiro permitia. As fotos de 2023 mostram carrinho de mão na calçada, massa sendo virada no sol e o painel da CIATDAL já pregado na parede sem reboco.
Não é metáfora, é o método. A instituição inteira foi construída assim, com o que dava para fazer no dia, sem esperar a condição ideal aparecer.

Hoje esse endereço abriga ensaio, oficina, reunião, biblioteca, sessão de cinema e projeto social. É de lá que sai quase tudo que a CIATDAL faz.
Os reconhecimentos que colocaram Porto Franco no mapa
Nos últimos anos, o trabalho da CIATDAL passou a ser reconhecido fora da cidade.
- Ponto de Cultura, dentro da Política Nacional Cultura Viva
- Edital Brasil que Lê, com reconhecimento nacional do trabalho de leitura
- Prêmio Periferia Viva 2025, do Ministério das Cidades
- 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, representando o Maranhão
Ser Ponto de Cultura significa integrar a rede da Política Nacional Cultura Viva, que reconhece iniciativas culturais nascidas dentro da própria comunidade. É o Estado dizendo que aquele trabalho é política pública de cultura, e não hobby de fim de semana.

A atuação também passou a ultrapassar Porto Franco, chegando a outros municípios do Maranhão e a intercâmbios no Tocantins.
- Imperatriz
- João Lisboa
- Senador La Rocque
- Itinga do Maranhão
- Estreito
- Campestre do Maranhão
- Lajeado Novo
- São João do Paraíso
- Carolina
- Balsas
- Sítio Novo
- Ribamar Fiquene
- Davinópolis
Mais do que os prêmios, o número que a instituição faz questão de citar é outro. Mais de 5 mil pessoas impactadas diretamente em oficinas, festivais, espetáculos e ações culturais ao longo dessas duas décadas.
O que mudou da CIATDAL do início para a de hoje
Mudou quase tudo na estrutura, e quase nada no motivo.
No começo era um grupo de jovens com vontade e nenhum recurso. Hoje é uma instituição com estatuto, prestação de contas publicada, equipe, projetos aprovados e parceria com poder público e universidade.
Entre um ponto e outro entrou estudo. Curso, intercâmbio, participação em rede de cultura e em política pública, o que permitiu escrever projeto melhor e executar projeto maior.
A atuação também abriu. O que era teatro virou teatro, dança, literatura, audiovisual, cultura popular, educação antirracista e formação cultural.

A cena acima é de 2026, na temporada do Boi do Favela. Do outro lado da mão dada está uma senhora que foi assistir e acabou dentro da brincadeira.
É a diferença de escala em uma imagem. O grupo que ensaiava na calçada para uma dúzia de vizinhos hoje enche arena e leva a plateia junto.
O que não mudou foi o ponto de partida. A CIATDAL nasceu de um gesto de gratidão, e continua funcionando como devolução, transformando em oportunidade o apoio que recebe.
O que a CIATDAL representa hoje
Toda instituição que cresce desperta olhares diferentes. Tem quem acompanhe de perto e tem quem só veja o resultado pronto.
Poucos viram os ensaios na calçada, a falta de recurso, o preconceito e as portas fechadas. Muita gente conhece a CIATDAL de hoje, e não a história de resistência e trabalho voluntário que tornou isso possível.
Para a comunidade de Porto Franco, ela virou endereço certo. É onde o adolescente vai quando quer dançar, onde a criança vai buscar livro e onde a família assiste o filho no palco pela primeira vez.
O que a CIATDAL quer para os próximos 20 anos
No plano material, o sonho tem endereço. Uma sede própria, ampla e acessível, que seja escola, palco, biblioteca e centro cultural ao mesmo tempo.
A ideia é garantir para as próximas gerações a estrutura que os primeiros integrantes não tiveram, quando o palco era a calçada e o camarim era a sala da casa de alguém.
No plano do que não se compra, o desejo é outro. Que fique registrada a lição que a instituição aprendeu na prática, a de que transformação social não se faz sozinho.
Cada conquista desses 20 anos veio de gente que se juntou. Voluntário, família, parceiro, professor, vizinho e estudante.

Essa turma é de 2026. Nenhuma dessas crianças era nascida quando o grupo montou o primeiro espetáculo, e são elas que vão dizer como a CIATDAL vai ser em 2046.
Se daqui a 20 anos existir uma geração nova ocupando esse espaço e acreditando que a arte muda vida, a missão terá sido cumprida.
Perguntas frequentes sobre os 20 anos da CIATDAL
O que é a CIATDAL?
A CIATDAL é a Companhia de Teatro e Dança Arte Livre, uma associação cultural sem fins lucrativos de Porto Franco, no Maranhão. Ela usa teatro, dança, leitura, audiovisual e cultura popular como ferramentas de educação, cidadania e transformação social.
Quando a CIATDAL foi fundada?
O primeiro espetáculo aconteceu em janeiro de 2006, e é dessa data que se contam os 20 anos. A formalização como associação, com Estatuto Social e CNPJ, veio em 2009.
Quem fundou a CIATDAL?
A instituição foi idealizada por Edvan da Silva Oliveira e construída junto com um grupo de jovens da comunidade. O Estatuto Social registra 15 membros fundadores.
Onde fica a sede da CIATDAL?
Na Rua Ingarana, 409, bairro Alto Bonito, em Porto Franco, no Maranhão. É lá que acontecem os ensaios, as oficinas, a biblioteca comunitária e as reuniões da instituição.
Quais projetos a CIATDAL desenvolve hoje?
São 07 frentes permanentes, o Festival Porto Dança, o Movimento Consciência Negra e Democracia, o Boi do Favela, o Projeto Leia Mais, a Biblioteca Comunitária Maria Firmina dos Reis, o CineArte Clube e o Espaço Cultural Mano Eris.
O que significa ser Ponto de Cultura?
É integrar a rede da Política Nacional Cultura Viva, que reconhece e apoia iniciativas culturais criadas dentro das próprias comunidades. O título dá acesso a editais e políticas públicas de cultura e reforça a credibilidade institucional.
Como participar ou apoiar a CIATDAL?
Qualquer pessoa pode participar das oficinas, ser voluntário, apoiar financeiramente ou firmar parceria institucional. O contato mais rápido é pelo WhatsApp da instituição.
20 anos construídos por muita gente
Essa história é da comunidade de Porto Franco. Quer participar das oficinas, ser voluntário, apoiar ou levar a CIATDAL para a sua cidade? A nossa equipe está pronta para conversar com você.
























